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O que muito hoje a humanidade necessita? Refletir...
Precisa buscar ajuda... Permitir-se intuir...
Encontrar caminhos para si e fazer-se companhia
Apoiar-se em Deus, dar créditos aos seus
Reencontrar-se com a VIDA e a POESIA.

É um convite a pensar, conversar
Meditar com palavras explícitas
Implícitas experiências do Coração
Dar mais um espaço à EMOÇÃO!
"...a POESIA é para comer, senhores..."


10/19/2017

O além é muito além do ego e do basal...


'Eu não quero ter razão, 
quero é ser feliz', 
disse Ferreira Gullar

Imagem: Google imagens


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...e se não houver amanhã, você foi feliz HOJE?
Se a resposta for sim...  Que bom!

O que plantei, reguei...



"Podemos escolher o que plantar, 
mas somos obrigados a colher o que semeamos."
__Provérbio Chinês



                 Todos, sabedores ou não, plantamos muito (tudo e nada) ao longo da caminhada... E se me perguntam... - Como um poeta, que busca andar com a esperança, a fé, com as belezas da natureza, com o amor..., também vive a colher tanto mais diverso ou recebe dor?  A resposta mais complexa é simples: pelas infindáveis nuances da vida e de viver em cada ser. 
 Ou ainda...

               Podemos ser capazes de vislumbrar (sonhar) o que queremos viver, mas não o que vamos viver no sentido do sentir, no sentido de como as emoções, as sensações, o que nos alcança etc., em nós vão repercutir. Podemos e devemos querer buscar o melhor a viver e fazer, o que há de bem e bom, com relação a nós e aos outros. O que não quer dizer que sempre acertaremos com relação a nós mesmos e, principalmente, acerca de outro ser (ou seres), convivendo ou aproximado, e os impactos que recebemos (mesmo sem notarmos) com a energia desse outro ser (ou seu ego, superego), e que, às vezes, nos fazem ver e outras vezes nos deixam cegos...

       Em momentos mil e milhões, em sua passagem pelo mundo, a humanidade (e o poeta não está longe de tê-la) há de ter recebido de volta, "para si", em confronto com seu 'eu' (como 'expansão' de sua energia), cada ato (ou agir inexato), cada sentimento (bonito ou não), cada erro ou acerto (consciente ou não), cada verdade ou engano, cada aceite para a escravidão (seja escravo do trabalho, de valores distorcidos, ignorância, preconceito, negação etc.)... cada manifestação energética fluídica doada, espaçada ou semeada; há de receber de cada um desses, o fruto do seu grão.
      Exemplificando... Podemos querer "viver um grande amor", ser plenitude de querer se doar, amar e ser, mas se do outro lado só houver dúvida, fuga, escárnio, medo, ego, engano ou não superada dor, qual caminho haverá a andar?  "Ah, mas não cura tudo o amor?", alguns vão pensar. Mas não conseguem perceber (diferente de pensar, que é algo apenas mental): como tem flores que desabrocham e outras não; há quem queira cura, outros não...  E é salutar ter essa consciência... Melhor ter contato, por exemplo, com a tristeza plena de uma verdade a ser superada (e dar lugar ao novo) do que com fragmentada e irreal alegria, ou viver a mentira da deslealdade consigo mesmo ou sob os costumes de uma alma apequenada ou sem condição de real visão.
        O Amor é benigno e não força (pois, que beleza ou importância tem algo 'à força', algo que não seja de um fluir interior, espontâneo, ou mendigar presença na vida de quem já têm escolhas que não nos incluem verdadeiramente?). O amor é novidade de vida e não se impõe aos adeptos do "mais do mesmo", a quem com ele não queira se doar ou companhia no caminhar... Ou ainda, não se faz presente nem compactua com quem esteja preso nas masmorras da "atrativa impossibilidade", o "amor" idealizado, cultuado por ser impossível. Na verdade, o nome desse "amor" é outro...  Permanecendo o bem-querer (mas não o alastrar do engano semeado pelo outro lado), e o que aqui viemos saber, mais uma lição: dois juntos só andam bem se quiserem ser par, se quiserem um com o outro andar. Corações liberados para amar.


"O que eu plantei...
Foram caminhos que caminhei
Foram sementes que aprendi
Desde minha chegada aqui

O que eu plantei...
Foram também caminhos que desconstruí
Foram visões que adentraram em mim
Foram todos os não e todos os sim

Foram as derrubadas lágrimas 
e inesperadas alegrias 
Também todas as sensações que forcei 
e as que fluíram em magias

O que plantei...
São as verdades e enganos que são sobre mim
E o que aprendi sobre vão e os que não são
São as cores e flores que vi e as que não enxerguei

Foram a calmaria e revoltas que naveguei
Foram os sentidos que me fizeram aflorar
Foram as dores crescentes e a abandonar
O que percebi que é infinito, e as coisas só mentes

Hoje (tempo/caminhada recentes)
Com o fruto do que reguei
Com o crescimento à vista
Com o resultado seguro em minha mão

Não há surpresa em perceber
Como é real o pluriversal "plantar e colher"
Como vi só o que limitei a visão
Que o fruto veio da semente... Ilusão.
__Valéria Milanês
Imagens: Google imagens

Tempo-Espaço-Lugar...



"Foi o tempo que perdeste com tua rosa 
que fez tua rosa tão importante."
___Antoine de Saint-Exupéry

         

     Ou não...!  Com relação às questões tempo-e-espaço (principalmente no contexto de à fazeres, planejamentos, prioridades e sensibilidade), muitas são as justificativas... Muitas delas repetitivas, cansativas etc., principalmente por faltarem com a transparência, a verdade...
      A partir daí, das impressões causadas, temos expressões populares pequenas (também conhecidas como 'sabedoria popular ou alma do mundo'), mas que resumem grandes verdades sobre ser, agir, ver e o "tempo-espaço-lugar" que cabemos ou nos colocam ou permitimos que nos coloquem,  ou seja, sobre participação, presença, compromisso, seleção de visão ou cuidados (seja que em que área for: político, social, mental, amoroso...), que se encaixam tão bem, tipo:  

"Vai enganar outro!"

                   

Ou melhor ainda...




"Faça o que  'tiver de fazer'

 ou

O que quiser escolher viver... Cultiva"



         Mas...
         Num sinal importante de evolução/ autoconhecimento/
autoquestionamento...



Não engane mais alguém...
                          Nem a si mesmo...!

E...
Sejas feliz com tuas escolhas!
(conscientes ou não. E com suas consequências, com suas perdas...)

Afinal,
"E perder um defeito, ou uma deficiência, ou uma negação, sempre é perder".
___Fernando Pessoa

Imagens:  Google imagens

Imbecilizador e imbecializados...



"Não é impossível perceber quando queremos ver...
Não é difícil enxergar 
quando verdadeiramente estamos olhando
É possível sentir, ser, viver, realizar 
(e tudo mais quanto se crê...) 
a partir de nós mesmos 
- num balanço de discurso versus coerência; 
dando ou não a chave de nosso coração -,
se não elegemos mistificação, 
  doutrinadores (colonizadores),
o culto da cegueira, o culto à negação,
 o "culto da ignorância"..."
_Valéria Milanês
"Imbecializador Profissional" por Marcia Tiburi (Escritora/Filósofa)
via Canal Youtube Midia NINJA


Imagem:  Google imagens

Aforismos por Carlos Drummond de Andrade


Série:  Nossos Poetas



"Culpamos o clima pelos defeitos de nossa natureza."


"O avesso da mentira nem sempre é a verdade,
mas outra mentira."


"Como as plantas, a amizade não deve 
ser muito nem pouco regada."


"A todo momento estamos pregando mentiras 
a nós mesmo, e acreditando nelas".


"Certas amizades comprometem a ideia de amizade"
   

"Acreditar em nossa própria mentira 
é o primeiro passo
para o estabelecimento de uma nova verdade".


"A amizade é um meio de nos isolarmos
da humanidade cultivando algumas pessoas."
__ Carlos Drummond de Andrade*


e, claro... 
Em todo tempo em todo momento um...
Imagens: Google imagens

______________________________
*       "Assim como os antigos moralistas escreviam máximas, deu-me vontade de escrever o que se poderia chamar de mínimas, ou seja, alguma coisa que, ajustada às limitações do meu engenho, traduzidas um tipo de experiência vivida, que não chega a alcançar a sabedoria mas que, de qualquer modo, é resultado de viver.


         Andei reunindo pedacinhos de papel em que estas anotações vadias foram feitas e ofereço-as ao leitor, sem que pretenda convencê-lo do que penso nem convidá-lo a repensar suas idéias. São palavras que, de modo canhestro, aspiram e enveredar pelo avesso das coisas, admitindo-se que elas tenham um avesso, nem sempre perceptível mas às vezes curioso ou surpreendente."

-  Carlos Drummond de Andrade, em "O avesso das Coisas". São Paulo: Editora Record, 2007.

10/10/2017

A arte e a alma da natureza...



"A arte é a contemplação; 
é o prazer do espírito que penetra a natureza 
e descobre que a natureza também tem alma." 
__Auguste Rodin
Imagem: Google  imagens

10/09/2017

Vida e Arte em toda parte...



Série: Arte_Cultura&Sociedade


"Todas as artes contribuem 
para a maior de todas as artes, 
a arte de viver." 
___Bertolt Brecht


                Em tempos conturbados de exaltação da ignorância em diversas instâncias, subjetivas e concretas, incentivo à desinformação, à criação de "otários de cínicos", ao ódio, confusão de fatos e informações para o deslanchar de atos e fatos manipulados e autoritários, supervalorização dos enganos e do que é enganoso e, ainda, numa proposta de "pintar cores de reflexão", abaixo algumas considerações e trechos de didático artigo, de Nora Prado* - texto na íntegra ao final do post  -  acerca das evoluções humanas, bem como das involuções sociais, e onde a ARTE (e suas manifestações e expressões, em contexto de liberdade ou tentativa de apagamento da mesma) tem caminhado nesses entremeios, ou seja: a partir do próprio Homem ou na representação de cultuada robotização (leia-se: todo plantar tem um colher) e valorização da desumanidade e suas consequências, ao longo dos tempos - inclusive os atuais.

"...Não dá para livrar todo mundo 
da sua própria ignorância..."



entretanto...


Quem sabe...  
Os que queiram possam perceber e vencer
a ignorância, o preconceito e a prepotência 
com ampliação de visão

com real CONHECIMENTO!



Conhecimento de... 


História
        
Memória

Percepção Ampla sobre Vida
(que nunca pôde ser e nunca será enclausurada definitivamente 
apenas por desconhecimento ou convenções de limitação / opressão) 

Caminhos da ARTE!




E o quanto esses caminhos 
nos dizem respeito

mesmo que...
 os desconheçamos
mesmo que...
enxerguemos de formas diferentes
mesmo que...
 não os entendamos

mesmo que...
 queiramos ver o mesmo ângulo ano após ano

existem outros...


 n g u l o s!



Optical Illusion Art | Megaodd.com - Arte contemporânea




Ontem
              "Antes de tudo é preciso reconhecer a necessidade da arte como manifestação inerente a qualquer criança e presente desde os tempos mais remotos, quando as comunidades humanas ainda viviam nas cavernas. Os desenhos encontrados nas paredes, de inúmeras delas, testemunham a vida do grupo e a sua relação com a natureza e os animais, além de revelar um olhar apurado, e extremamente sofisticado, nestes desenhos magníficos. Começava a narrativa pictórica, necessária, para estabelecer a própria história e dar sentido aos valores da tribo. A relação com as forças incontroláveis da natureza eram relacionadas com os poderes sobrenaturais e o divino. A música dos tambores e os rituais para as caçadas, fertilidade, nascimento e morte passaram a fazer parte de um conjunto de práticas que auxiliavam na organização e fortalecimento destas comunidades primitivas. Embora esse “fazer artístico”, sequer fosse pensado como arte, era fundamental para dar unidade e identidade aos seus integrantes. Desenhar, modelar, esculpir, naturalmente, começava a fazer parte da vida comunitária onde os conteúdos simbólicos ganhavam materialidade e forma objetiva. Fosse através do barro moldado, da pedra esculpida, dos desenhos ou da música e dança que passavam a integrar a cultura nativa dessas tribos nômades."

Hoje
Século XXI__Ano 2017
            "Se em dado momento a arte foi uma projeção da natureza e da figura humana em suas formas e cores mais semelhantes, quase fotográfica, isso se deu de modo a preservar os momentos políticos e sociais como a crônica narrativa da época. Uma forma de eternizar o tempo e recontá-lo para as gerações futuras. Com o advento da fotografia e posteriormente do cinema, essa representação, quase fotográfica, da realidade perdeu sua razão de ser, afinal a câmera fotográfica era capaz de fazer isso melhor e mais rápido. A arte se libertou desse formalismo e pode se aventurar sobre outras possibilidades criativas. Desde então as artes plásticas sofreram uma série de mudanças a partir de tendências que se agrupavam em torno de uma filosofia ou escola específica. Se pensarmos na quantidade de artistas que tiveram sua obra rejeitada pelo gosto social da época, constatamos que essas mesmas obras serão assimiladas com o passar do tempo e o artista será finalmente reconhecido como tal.
               ...que tipo de arte pode ser produzida nestes tempos de modernidade cínica e sombria? Diante dessa sociedade hipócrita e doentia? É evidente que não será mais a natureza morta com o seu belo vaso de flores. O horror através da arte é mostrado para que possamos sair do estado letárgico e passivo em que nos encontramos. Como possibilidade de oposição e questionamento. Por isso os suportes da tela não são mais suficientes. Criam-se instalações, a arte passa pela rua, entra em novos espaços, inclusive pelo corpo vivo do próprio artista que, em sua nudez primeira, revela a solidão e fragilidade de nossa condição, demasiadamente, humana. Penso que a obra de arte e a função do artista também é de manifestar indignação, provocar revolta, comoção, inquietação e reflexão. A obra de arte sintetiza um inconsciente coletivo que evoca traumas, medos, dores, alegrias e tristezas. A arte propicia esse espaço meditativo para reconhecer a realidade e poder transformá-la. E por isso a ida a museus, teatros, cinemas, espetáculos de música e dança são oportunidades preciosas para entrarmos em contato com a nossa humanidade. Uma maneira de resgatar nossa sensibilidade embotada. A obra de arte contesta e indaga."


No Amanhã
__Seja como for o amanhã
  
         "Os museus guardam as relíquias destas civilizações ancestrais como objeto de apreciação e estudo, para conhecermos os hábitos, os valores e a vida cotidiana destes povos. A filosofia, medicina, ciência e literatura produzida, bem como o desenvolvimento das outras artes como a música, dança, teatro, escultura, pintura e arquitetura nos dão a medida evolutiva dessas civilizações.
          Em tempos de cegueira generalizada é fundamental que a arte e o artista reajam. Mas através da arte, que apesar da contundência e intensidade, possui poesia e transcendência, pois dialoga com outros seres humanos atingindo seus corações e mentes."

"Criações Artísticas 
ou Obras de Arte 
são ou podem ser...
"A Criação de Adão", de Michelângelo -ano: por volta de 1511

"Homem Vitruviano" de Leonardo Da Vinci ano 1490


                           V I S Õ E S



Os passos, traços, 
luz, transformação, expressões, 
rabiscos, impressões,
de quem foi, é ou será 
HUMANO!

Considerações expressas 
por diversas linguagens, aspirações, sentidos, emoções

"Davi", de Michelângelo - data 1501-1504

Crédito na imagem - Arte Contemporânea
O que está 'à flor da pele' 

e o profundo inconsciente
D.A. - Imagem: Google imagens

O querido, o reprimido
Batizado de Macunaíma de Tarsila do Amaral - data 1956

A ação lembrada 
e a reação dormente
by Peter Gric - Arte contemporânea

As viagens que estão em nós
e nunca se fizeram presentes

Optical Illusion Art | Megaodd.com Arte contemporânea


Não é...
Degeneração ou apologia a crimes
É expressão, representação
Cores, tintas, versos
Sonho, inspiração, indagação
Um passo à frente ou reverso
Natureza, pés, corpo, mão
by Emilio Gomariz - Arte Contemporânea

Alguns fatos  |  Alguns tempos
(vídeo exemplificando alguns acontecimentos na história recente do Homem e das Artes 
por através de ORALIDADE / depoimento de quem andou nesses tempos)
por Bemvindo Sequeira (Ator, Autor, Diretor )
Via FanPage Oficial Bemvindo Oficial

A Vida e a Arte estão em toda parte
Em todos os momentos!"
__Valéria Milanês

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Nota do Blog*:  

*...e a Arte, vencendo um vão entre a população e "a instituição arte", para além dos museus ou canais de "entretenimento", deveria estar mais presente nas periferias, nos recôncavos, nas vielas, nos guetos, nas esquinas, nos escondidos onde são colocadas a "parte útil" da sociedade: no dia a dia do homem (mulher) comum, do (a) trabalhador(a) braçal que não tem direito ao acesso à verdadeira educação ou lazer  (e demais direitos e necessidades fundamentais), e muito menos ainda à Arte de viver, e nem sabe o porquê.
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 __Umberto Eco



"A ciência descreve as coisas como são; 
a arte, como são sentidas, 
como se sente que são." 
__Fernando Pessoa


Escultura by Grégoire A. Meyer  Gif by George RedHawkb - Arte contemporânea
                                                                                                                                                                

                                                                                                                                                                                              ________________________
                                                                                                                                                                                                        Imagens: Google imagens
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A ARTE COMO NARRATIVA E INTERPRETAÇÃO DO MUNDO – 
por Nora Prado

              Devido as recentes polêmicas no universo das artes plásticas, no Brasil, com ataques insanos do MBL à exposição Queermuseu, exibida no Santander de Porto Alegre e da performance, La Bête, de Wagner Schwartz, apresentada no MAM de São Paulo, onde funcionários do museu foram agredidos fisicamente, considero oportuno algumas considerações sobre o papel das artes no desenvolvimento social e cultural das civilizações. Uma oportunidade para ampliar o debate sobre a função da arte como alfabeto para apreender e discutir sobre o mundo moderno.
              Antes de tudo é preciso reconhecer a necessidade da arte como manifestação inerente a qualquer criança e presente desde os tempos mais remotos, quando as comunidades humanas ainda viviam nas cavernas. Os desenhos encontrados nas paredes, de inúmeras delas, testemunham a vida do grupo e a sua relação com a natureza e os animais, além de revelar um olhar apurado, e extremamente sofisticado, nestes desenhos magníficos. Começava a narrativa pictórica, necessária, para estabelecer a própria história e dar sentido aos valores da tribo. A relação com as forças incontroláveis da natureza eram relacionadas com os poderes sobrenaturais e o divino. A música dos tambores e os rituais para as caçadas, fertilidade, nascimento e morte passaram a fazer parte de um conjunto de práticas que auxiliavam na organização e fortalecimento destas comunidades primitivas. Embora esse “fazer artístico”, sequer fosse pensado como arte, era fundamental para dar unidade e identidade aos seus integrantes. Desenhar, modelar, esculpir, naturalmente, começava a fazer parte da vida comunitária onde os conteúdos simbólicos ganhavam materialidade e forma objetiva. Fosse através do barro moldado, da pedra esculpida, dos desenhos ou da música e dança que passavam a integrar a cultura nativa dessas tribos nômades.

              Com o passar do tempo, essas pequenas sociedades puderam se fixar no solo, através da agricultura e da domesticação de alguns animais para alimentação do clã e futuras trocas entre os seus habitantes. Além disso, com a evolução da linguagem e da hierarquia política, os valores éticos se consolidaram e seus pares organizaram-se ao redor de princípios, nos quais, esses homens e mulheres acreditavam. Antes mesmo de existir moeda corrente ou linguagem escrita, essas tribos seguiam com seus ornamentos, rituais, desenhos, esculturas, cantos e danças próprias da sua cultura.

           As comunidades evoluíram, bem como o sistema econômico, social e político de cada tribo que terminou por formarem vilas, aldeias e cidades com língua e hábitos comuns. A partir dessas pequenas unidades, não sem guerras, escravidão e derramamento de sangue, surgiram as primeiras civilizações, com a divisão do trabalho e as funções sociais discriminadas. A religião e o sistema de leis, bem como a escrita, foram fundamentais no desenvolvimento da comunicação e expressão. A arte passou a ter lugar de destaque e refletia os valores, hábitos e crenças próprias daquela sociedade. Os artesãos produziam imagens e objetos que valorizavam os deuses, os governantes, a vida doméstica e narravam a história através de novos materiais e técnicas. A cultura e o sistema social, político e religioso da Mesopotâmia, Egito, Pérsia, Grécia, China e Índia podem ser facilmente estudados a partir dos vestígios da arte produzida por estas civilizações. Afinal a arte é o resultado da síntese, da decantação temporal e da estruturação estética através de códigos culturais específicos.

            Os museus guardam as relíquias destas civilizações ancestrais como objeto de apreciação e estudo, para conhecermos os hábitos, os valores e a vida cotidiana destes povos. A filosofia, medicina, ciência e literatura produzida, bem como o desenvolvimento das outras artes como a música, dança, teatro, escultura, pintura e arquitetura nos dão a medida evolutiva dessas civilizações. O legado greco-romano foi fundamental para o ocidente, pois a partir dele a Europa se constituiu como gênese dos futuros países que se formariam a partir da Idade Média. Nesse período os pintores e escultores ainda estavam identificados com a figura dos artesãos e das guildas comerciais. Não havia a noção da autoria e da assinatura própria. A ideia do artista, como nós reconhecemos hoje, surge a partir do Renascimento. Com o resgate dos ideais da cultura clássica greco-romana, muito da sua filosofia, política e arte foi retomado, especialmente, no que concerne aos artistas da corte. Leonardo da Vici, Michelangelo, Rafael, Boticelli, Giotto, Caravaggio, Masaccio, entre outros, serão influenciados pela cultura helênica com o predomínio da razão, da invenção, da glorificação do homem e da natureza. Com o surgimento da imprensa a disseminação das ideias através dos jornais e livros impulsionou a comunicação consideravelmente. Além disso, a era das navegações incrementou o comércio e a ciência, possibilitando trocas culturais riquíssimas. Mas a descoberta das Américas com a ocupação europeia destruiu culturas em estágios diferentes de civilização, o que foi lamentável em todos os sentidos. As colônias foram saqueadas e seus proprietários, legítimos, foram dizimados ou escravizados. O tráfego de escravos e o sistema capitalista produziu riquezas e bens, além de muita miséria e desigualdade social no Brasil e em toda a América Latina.

           As sociedades seguiram se desenvolvendo bem como os movimentos estéticos através do Barroco, Neoclassicismo, Romantismo, Naturalismo, Realismo, Impressionismo, Simbolismo, Expressionismo, Cubismo, Surrealismo, Modernismo. Enfim, dou um rápido panorama histórico somente para mostrar que em cada momento específico e conforme as forças sociais e culturais da sociedade, uma arte particular foi produzida.

                   Se em dado momento a arte foi uma projeção da natureza e da figura humana em suas formas e cores mais semelhantes, quase fotográfica, isso se deu de modo a preservar os momentos políticos e sociais como a crônica narrativa da época. Uma forma de eternizar o tempo e recontá-lo para as gerações futuras. Com o advento da fotografia e posteriormente do cinema, essa representação, quase fotográfica, da realidade perdeu sua razão de ser, afinal a câmera fotográfica era capaz de fazer isso melhor e mais rápido. A arte se libertou desse formalismo e pode se aventurar sobre outras possibilidades criativas. Desde então as artes plásticas sofreram uma série de mudanças a partir de tendências que se agrupavam em torno de uma filosofia ou escola específica. Se pensarmos na quantidade de artistas que tiveram sua obra rejeitada pelo gosto social da época, constatamos que essas mesmas obras serão assimiladas com o passar do tempo e o artista será finalmente reconhecido como tal.

                     Foi assim com o caso, clássico, de Vincent Van Gohg que foi incompreendido e não vendeu, sequer, uma única tela durante a vida e, no entanto, com o passar do tempo sua pintura foi considerada genial e, atualmente, é um dos pintores mais populares do mundo. Suas figuras feitas com pinceladas grossas e cores vivas sem, necessariamente, coincidir com o real foi um choque na época. E, sobre isso, é importante ressaltar que a obra de arte não é a mimetização da vida, mas a sua representação. Uma forma de interpretar o mundo e dar significados diversos à experiência de viver. Nesse sentido a arte parte de uma premissa de liberdade expressiva para existir. O artista tem seu próprio ponto de vista sobre os temas que elege, assim como, os suportes e materiais escolhidos. A arte é uma espécie de mediação da realidade, entre o que o artista vê e sente e aquilo que expressa. Portanto ela não precisa necessariamente ser ou dar a ilusão do real, mas antes sugerir e evocar a realidade. Se no Renascimento muitas pinturas tinham o poder de elevar o espírito, promover a comunhão do espectador e a obra, suscitar piedade e compaixão, ou exaltar a beleza a arte não se resume a estas expectativas.

                Se a arte reflete sobre o mundo e diz respeito aos valores cultivados pela sociedade, da qual faz parte, é natural que expresse essa realidade. Ora, vivemos numa sociedade de consumo capitalista e selvagem, na qual o jogo de interesses mina a confiança e a amizade, a competitividade gera estresse e insatisfação, o individualismo e hedonismo alheiam os seres humanos de si mesmos, o desejo é massificado e manipulado pela mídia e a publicidade, há excesso de informação e falta de conhecimento, poluição sonora, visual, além de um abuso dos recursos naturais em prejuízo da qualidade de vida. Os centros urbanos são fábricas de loucos, onde as desigualdades sociais ficam cada vez mais acentuadas, o lazer pasteurizado, os meios de comunicação estandardizados e a incomunicabilidade cada vez maior. As redes sociais e o mundo virtual transformados em arena onde se disseminam ódios e intolerâncias de todos os tipos. As religiões viraram seitas e os fiéis, cegos fanáticos, que matam e destroem em nome de Deus. A manipulação da infância e juventude transformado-os em consumidores sem limites está criando gerações de neuróticos frustrados e pessoas imediatistas. O fracasso das ideologias e a decadência dos valores humanistas abriu uma fissura nos sistemas políticos e desiludiu milhares de pessoas. A corrupção e oportunismo dos partidos políticos e suas medidas absurdas desfiguraram o nosso Brasil. Um conservadorismo galopante que se manifesta com mais prepotência e agressividade em todo mundo. Neonazistas e radicais islâmicos mostram a face cruel e horrenda do radicalismo e da intolerância política e religiosa. Estamos à beira de uma terceira guerra mundial, a mercê das vaidades de Trump e do ditador Kim Jong-Um. Com francos atiradores matando civis em Las Vegas e bandidos do trafico e da polícia civil matando inocentes na Rocinha. Com bispos e padres molestando crianças e toda a sorte de violência e vulgaridade passando na televisão e nos joginhos eletrônicos. Com incendiários matando criancinhas em creches e homofóbicos matando gays indiscriminadamente. Ora, deduzo que estamos morando no inferno.
                 
            Então me pergunto: que tipo de arte pode ser produzida nestes tempos de modernidade cínica e sombria? Diante dessa sociedade hipócrita e doentia? É evidente que não será mais a natureza morta com o seu belo vaso de flores. O horror através da arte é mostrado para que possamos sair do estado letárgico e passivo em que nos encontramos. Como possibilidade de oposição e questionamento. Por isso os suportes da tela não são mais suficientes. Criam-se instalações, a arte passa pela rua, entra em novos espaços, inclusive pelo corpo vivo do próprio artista que, em sua nudez primeira, revela a solidão e fragilidade de nossa condição, demasiadamente, humana. Penso que a obra de arte e a função do artista também é de manifestar indignação, provocar revolta, comoção, inquietação e reflexão. A obra de arte sintetiza um inconsciente coletivo que evoca traumas, medos, dores, alegrias e tristezas. A arte propicia esse espaço meditativo para reconhecer a realidade e poder transformá-la. E por isso a ida a museus, teatros, cinemas, espetáculos de música e dança são oportunidades preciosas para entrarmos em contato com a nossa humanidade. Uma maneira de resgatar nossa sensibilidade embotada. A obra de arte contesta e indaga. E dentre tantos autores, nunca Shakespeare, Kafka e Nélson Rodrigues me pareceram tão modernos, pois seus personagens perversos, solitários, arrogantes, hipócritas, medíocres, covardes, delirantes com seus fantasmas e deformações, continuam oprimindo e enganando alguns heróis que seguem lutando e gritando por justiça e liberdade.

               Em tempos de ódio generalizado, dentre tantas imagens que escolhi para ilustrar essa crônica, nada me parece mais apropriada do que este Cristo Shiva do artista plástico Fernado Baril. A própria imagem da deturpação de tudo quanto Cristo e Shiva representam. Estão ali desolados, impotentes e a mercê da deformação da sociedade de consumo. E a propósito das hóstias que tantos esbravejaram contra o artista que escreveu vagina e outras palavras, sobre elas, percebo nessa ousadia um ato simbólico mostrando que a verdadeira perversão acontece dentro da igreja. Quando padres e bispos abusam sexualmente de meninos e meninas indefesos, com sua sexualidade reprimida desde a Idade Média. A mesma igreja católica que perseguia, prendia, torturava e queimava bruxas. A mesma TFP que atualmente queima terreiros, destrói templos que não veneram os mesmos Deuses. A mesma Ku Klux Kan que persegue e mata negros. Os mesmo ignorantes covardes que picham o equipamento público do Santander Cultural e os mesmos defensores da moral e dos bons costumes que ofendem e agridem a socos e pontapés os funcionários do MAM.

                 Em tempos de cegueira generalizada é fundamental que a arte e o artista reajam. Mas através da arte, que apesar da contundência e intensidade, possui poesia e transcendência, pois dialoga com outros seres humanos atingindo seus corações e mentes.

Porto Alegre, 7 de outubro de 2017.
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Publicação na íntegra com as images que o ilustram : 
https://www.facebook.com/eleonora.prado.1 


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